Na verdade, poucos artistas foram tão mal interpretados como Louis Armstrong (4/8/1901-6/7/1971), conhecido como Satchmo. Sua imagem pública era a do negro risonho, cantando com uma boca grande e dentes branquíssimos, disparando rajadas de trompete e secando o suor com um lenço.
Onipresente durante cinco décadas, chegou aos primeiros lugares inclusive nos anos sessenta, com canções adoráveis como Hello Dolly e What a Wonderful World. No entanto, ele foi tão revolucionário em seu tempo quanto Jimi Hendrix. Com suas gravações dos anos vinte, transformou uma música grupal (o hot, o primeiro jazz) em expressão de solistas intrépidos, de grande talento físico e criatividade inesgotável.
Tão suave acabou sendo sua reputação que causa certa surpresa verificar que por trás dessa imagem havia uma pessoa briguenta e curiosa. Sua popularidade cresceu com o rádio, os filmes e mais tarde, com a televisão. A voz grave e um estilo inconfundível de cantar, emitindo às vezes sílabas sem sentido, em vez da letra da canção, como se a voz imitasse um instrumento, tornou-se sua marca registrada, tanto quanto o seu trompete.
Louis não era bobo nem inocente, como muitos acreditavam. Muito consciente de sua relevância artística, tentava analisá-la redigindo suas lembranças e opiniões. Escrever lhe permitia enriquecer o personagem que se apresentava ao vivo. Ali tudo eram risadas e caretas; sozinho, refletia sobre suas vivências. Dedicado e muito exigente consigo mesmo, mostrava-se tolerante com os vícios e caprichos de seus colegas. Com cola e tesoura, Armstrong fazia colagens que revelavam seus gostos e preocupações.
Fonte: El País/brasil/2018/12/28/cultura
Vídeo oficial: https://www.youtube.com/watch?v=uWCTYvS1xC8


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